Páginas

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

.:"Nos confins de uma única fotografia":.


[imagem: Palerme, Italy (1971) | Henri Cartier-Bresson]

"Acima de tudo, eu quis aproveitar toda a essência, nos confins de uma única fotografia, de alguma situação que estava em processo de desdobramento de si mesmo diante dos meus olhos.
[Henri Cartier-Bresson]
.
.
.

A fotografia (acima) de Cartier-Bresson, é uma das imagens que mais me comove! Essa imagem representa, para mim, a leveza como uma ordem, lei, dever, exemplo.

A luz do sol indica o “dia de trabalho”, um horário à cumprir e os carros (cápsulas individuais) esperam seus donos que retornarão em um tempo estipulado por normas, estacionados em um mundo monótono, previsível, ordenado, sem graça e adulto; Enquanto do outro lado da rua, à sombra e na direção oposta, dois garotos nos transportam para um outro tempo. A infância e seu poder em desconstruir a imposição das obrigações, uma única roda correndo livre, os sorrisos, a tentativa em alcançar o brinquedo. Para onde os garotinhos correm? A rapidez não representa o atraso, nem mesmo um compromisso inadiável, nenhuma obrigação. Em um acordo íntimo, correm ao sabor do vento, sem preocupações, com as perninhas direita sincronizadas com os olhares atentos ao objeto de desejo: A roda, o movimento, um tempo muito próprio e distante da realidade do outro lado da rua. (Entre um lado e outro, aparece ainda mais um carro que segue. Este, em movimento também oposto ao das crianças.)

Nunca fiz questão de saber em que momento - da Itália, do mundo, de vida - Cartier-Bresson capturou esse momento, nem o que pensou sobre a imagem. Isso seria deixar a realidade me “roubar” o meu , próprio, significado dessa fotografia. Ela me diz muito... Quando me dizem para pensar em uma imagem, essa certamente é a primeira que me vem à cabeça. Ilustra meu desejo é de seguir à sombra, pela vida, com a mesma delicadeza dos garotos, não importa se a direção é oposta aos demais. Os meus vinte e poucos anos de vida permitem correr atrás de desejos possíveis exatamente na contra-mão. Os carros parados, aguardando seus donos, não me agradam tanto quanto a calçada, o brinquedo correndo livre sob os olhares atenciosos daqueles dois garotinhos que ainda não descobriram o mundo ao lado.

É um outro tempo! A imagem me dá sessação ora de ser duas fotografias completamente distintas, ora de ter capturado dois tempos: O dos carros sem graça, inerte, sem alegria, pouco povoado, e, um outro (o dos garotos) intensamente vivo, onde eles são protagonistas de uma calçada que nem parece que tem fim, e que por essa razão não precisa ter a preocupação de olhar para a frente. A única lei, me parece, que é a de ser feliz. Gosto, também das formas geométricas da calçada em contraste com a roda, acho genial os oposto sombra-luz, direções contrárias, infância-adulto.

Tudo nessa imagem é incrível! As fotografias de Henri Cartier-Bresson, penso, nos força a aprender a olhar com atenção, inteiro. E olhando dessa forma, a gente começa a enxerga muito longe.

3 comentários:

Pamela Araújo disse...

Ótimo texto, ótima análise e jamais deixe de ver com seus próprios olhos e ter sua própria interpretação.Tbm tenho minha própria interpretação de quase tudo, e muitas das vezes ela é um pouco sonhadora e talvez até utópica demais, mas é minha e eu gosto assim.
Adorei seu blog.
Um beijo!

Aline Lima disse...

grata pela visita! ;D

Ana Valeska Maia disse...

Aline, tão bonito o teu olhar. Sensíveis palavras de quem sabe desenvolver os canais de percepção.
Bjs querida.