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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

.Ciranda de Pedras.

[imagem: deviantart]

"Ouça, querida - disse-lhe Otávia certa vez -, não fique assim com essa mentalidade de donzela folhetinesca, não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual no seu lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossivel. O mal está presente no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa. [...]
Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas. Este céu que nem promete chuva. Aquela estrelinha que esta nascendo ali... Está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os Reis Magos, nem os pastores, nem os marinheiros. Não fez nada. Apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil esta a Beleza. No inútil esta Deus.

Virginia apertou o ramo de rosas contra o peito. Inútil é o amor que eu tenho por você, quis dizer-lhe.
Não disse".

[Lygia Fagundes Telles]

2 comentários:

Mulher em Percurço e Percalço disse...

Que grande escolha fizeste cá nesta postagem...
Lembro desta obra a qual retrata a saga de uma uma mulher moderna que aspirava vida e tentava vive-la através de sua arte. Contudo, ela era casada com um famoso jurista que tinha um comportamento tradicionalista, restando, assim, uma união desajustada entre os dois. A parte melhor acontece quando, como um milagre da vida, surge um terceiro protagonista que mostra o quanto o amor é necessário existir em toda e quaisquer questões vividas. De maneira que: "...é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim sem esperar nada em troca".

Parabéns cara Alice Lima! Somente quem é grande tem "faro" para captar e fazer grandiosas escolhas! Gostei das partes ja lidas, perçebo grandezas nas postagens que pedem um tempo mais relaxado de leitura. Voltarei pouco a pouco para ler desde o princípio.

Obrigada pelo tua passagem e comentário no meu blog. Volte sempre que quiser, ficarei lisongeada! Bjinhos

Aline Lima disse...

Profª Francisca: fico feliz em concontrar pela rede pessoas que compartilham da alegria que é ler alguma coisa que nos modifica o instante com a beleza. gostei muito de seu blog! voltarei lá sempre. por aqui, sinta-se a vontade.

grata e abraços, Aline.