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terça-feira, 4 de agosto de 2009

.Quantos números cabem em uma espera?.

[imagem: deviantart]

Desconsolada pelo atraso para a reunião tão 'mega-importante' ela senta-se no banquinho de uma praça qualquer, de floresinhas vermelhas. Respira sem pensar em nada além do bendito relógio ao qual anda tão condicionada.

Enquanto aguardava um taxi, percebeu a pessoa sentada ao lado compenetrada em suas anotações. Um senhor de aparência frágil, e olhos delicados, vários bloquinhos de papel lotados de números em seu colo, e um às mãos enrrugadas onde ele anotava mais números. Achando super estranho aquilo e, não se contendo - (nunca se contém. dirão os que a conhecem) - ela já sentada, como quem não quer nada pergunta:

- O que o sr. está anotando?
- Números. Anoto números há muito tempo.
- E como o sr. se chama?
- Isso nem importa mais.
(ela quase recuou nessa hora, mas se interessou ainda mais)
- Eu gostaria de saber seu nome, porque gosto de pessoas que anotam números.
(ele a olhou e quis sorrir)
- Sé. Meu nome é José.
- Ah! Que nome mais bonito... Sou Aline. Prazer!
- Certo. Aline? Nome pequeno, só 5 letras.
- É... Só isso. Em 5 letras eu me caibo. E o senhor em 4. (sorriram) Mas o que o sr. tanto anota aí, tem muitos bloquinhos preenchidos. O sr. pode me contar?
- Contar? É só o que faço. Posso sim. Interessante. Ninguém quer saber sobre o que anoto, você menininha, é a primeira pessoa, primeira gente que me pergunta sem deboche. Eu anoto números. (e agora a parte que a chocou mais) Anoto números pra ver quantos caberão até acontecer a coisa boa que quero. Tenho mais caderninhos desses no meu quartinho. Todos tem muitos números.
- Minha nossa, fantástico!!! O que é a coisa boa que o senhor espera? Pode me contar?
- Eu espero uma felicidade que ainda não veio. Uma coisa boa só pode ser felicidade né?
- Só pode ser...
- Pois é. Eu espero isso anotando números. Quando essa tal felicidade me chegar vou contar tudo o que escrevi aqui e saber quantos números anotei, que dizem nas escolas que números nunca acabam né?
- Infinito. Existem aos montes. Como a areia da praia, as gotas do mar, essas coisas.
- É... estrela é coisa que não se sabe o fim também né?
- Não. São infinitas. O senhor é muito paciênte né? Lhe admiro... Porque que o sr. ao invés de ir esperando e anotando os números não vai logo, de vez, atrás da sua felicidade?
- Menininha a vida ensina a todo mundo esperar... Eu só arranjei um jeito de passar o tempo. Minha felicidade sumiu no mundo levando meus 2 filhos.
- Nossa, desculpa ter perguntado isso. Perdão! Mas o senhor não é nenhum pouquinho feliz?
- Não. Nem feliz e nem triste. Sou cinza, cinzento, pelo mundo andando... Vou de cidade em cidade debaixo desse sol.
- Nem é. O senhor é muito muito colorido, vivo! Repare. É bonito isso de anotar os números. O senhor aceita uma coisa se eu lhe der? (ela sempre carrega bobagens na bolsa e pensou que poderia alegrar seu Sé, com algum agrado.)
- Não tenho dinheiro.
- Mas é um presente de amigo! Não quero dinheiro.
- Presente? Amigo? Nunca tive nem um, nem outro.
- Pois agora vai ter os dois! Toma são seus. (ela tira da bolsa 5 chocolates e lhe entrega. ele fica sem ação, talvez desconfiado, porque não emocionado?)
- Menininha do céu! Sabe quantos anos eu não ganho um presente? Nem me lembro mais... Muito obrigado, obrigado, muito agradecido mesmo. Mas então coma um chocolate comigo, igual amigo.
- Claro que sim. Qual o senhor escolhe pra me dar?
- Ai, o de papel rosa, igual a flor que é você, menina do céu.
- Ô muito grata! O senhor é um amigo muito gentil. E, qual cor o sr. vai comer 1º?
- O verde, que eu gosto é de verde.
(comeram os chocolates e ela quase nem lembrava mais do taxi. ela gosta muito de estar com as pessoas).
- Pois é seu Sé, eu tenho que ir. Tenho trabalho... Foi muito bom encontrar o senhor e, agora, somos amigos ok? Um dia, quem sabe, a gente se encontra e, nesse dia eu quero saber quantos números o senhor anotou até sua felicidade ter chegado. Ela vem chegar, por mais que demore. Acredite viu? O senhor merece.
- Ah, mais já? É, gente de bem trabalha. Satisfação conversar com a senhorita, tão novinha, muito 'dilicadinha', uma rosa! Obrigado pelo presente. Vou guardar os papelzinhos tudo! Vou rezar à Deus que a senhorita seja bem feliz sempre, sem precisar anotar tanto número.
-Sério? Legal demais. São seus presente os bombons. Muito prazer e tudo de muito bom pro senhor. Vou rezar todos os dias para que o senhor encontre a sua felicidade também viu? Verdade mesmo isso.

(como bons amigos apertaram a mão um do outro, um taxi estacionava e ela tinha que seguir. Já dentro do carro, viu que seu Sé lhe acenava falando algo, pediu para esperar mais um pouco, abriu a porta e ele vinha correndo - com certa dificuldade - para lhe mostrar uma coisa. Era o bloquinho que ele estava - quando ela chegou a praça - fazendo suas anotações diárias. Na página em que escrevia tinha maior que todos os outros números o seguinte: 1 Lini.)

- Seu Sé o que é esse 1?
- É você!
(ela pasma de emoção, um sorriso enorme!!!)
- Eu? O 1? Que lindo!!!
- É, em anos da minha vida, a primeira felicidade que veio né? Justo nessa pracinha né?
- Minha nossa seu Sé. O senhor me mata de emoção!!! Grata meu querido!!! Felicidade foi o senhor que me deu agora. Grata infinitas vezes.
(buzinas! sim as pessoas tem pressa.)
- Vai com Deus que você é estrela menininha. Seus pais tem uma pérola, um jóia preciosa em casa viu?
(o taxi seguindo devagarinho...)
- Um beijo meu querido! Felicidades! Grata, grata, grata. Até mais!
.
.
.
Ela seguiu assim acreditando em anjos. Acreditando que as pessoas são mesmo lindas e delicadas por demais. Ela está, ainda, emocionada. Tanto que só pensa em, um dia, encontrar seu Sé, com sua felicidade à tira-colo.

Seguiu pensando em quantos números mais irão caber nessa espera tão solitária dele.
Seguiu pensando em suas próprias esperas, do tanto que isso pode ensinar-lhe.
Seguiu.
Seguiu por que (nós), as pessoas, sempre seguem.
Em frente.

--
O coração dela hoje anda silencioso demais... reflexão.

12 comentários:

Mônica. disse...

Acredito em anjos.
Linda a lição do seu José. Que ele, que nós, encontremos com a felicidade, sem tantos bloquinhos e com a devida paciência (prece silênciosa).
Amém.

Luana Couto disse...

.e.m.o.c.i.o.n.a.n.t.e.

A respeito dos anjos, M. Tadeo disse que antigamente os anjos eram necessários porque não haviam tantas pessoas na Terra, hoje são muitas pessoas que devem assumir esse lugar.
Eis!

livia. disse...

quebrou. morri. linda!

glória disse...

Sei não Aline, estamos sintonizadas em descobertas. Estou lendo, quase acabando, um livro denominado "a verdadeira história do pequeno príncipe". Ele, o principezinho, de hábitos aparentemente estranhos, tem me voltado, aportando uma nave de reflexões nesse meu planeta tão agitado. Leio esse teu diálogo, lembro da rosa do príncipe, do medo que ele sente das intempéries, do zelo com a sua felicidade, ali, ao sabor do ventos e vejo seu Sé e vc. Um encontro lírico e forte.

Onde trabalhas atualmente? Meu e-mail- gloriadiogenes@gmail.com

bjs

Anônimo disse...

Essa moça tem um coração bonita por demais.
Feliz de quem a encontra por ai, nesses acasos da vida, assim como o Sr. José.
Cheia de vida e de beleza interior com uma FORÇA ENORME de ir ALÉM e de buscar tudo o que almeja, é assim que imagino você.
Beijos!!!

Aline Lima disse...

Mônicat: que assim seja! =)

Lu: sempre encontro muitos anjos pelo mundo! ;)

Lívia: Oba(!) vc por aqui! =)

Glória: vou meeeesmo procurar por esse livro viu? a felicidade anda mesmo assim "ao sabor dos ventos". esse encontro foi muito significativo para meu momento presente. talvez, eu não esteja enxergando muito bem e os deuses me enviaram um anjo assim para me contar sobre coisas da vida. tenho muita sorte. um beijo e, te escrevo no e-mail. ;)

Sr. Anônimo: comentário bonito. :)

Beijo pra vcs!
.aline.

Ana Valeska Maia disse...

Aline, tão vivo o teu texto, tão você!
Senti como se estivesse lá, com vocês dois.
Muito emocionante, delicado, amoroso, lindo.
Beijo grande e saudoso de ti.

Joice Nunes disse...

gostei daqui. muito. mesmo. uma pausa, um respiro, um sorriso numa manhã ensolarada.

Aline Lima disse...

Ana: encontros bonitos pertecem a todo mundo. saudade de ti grande tbm.

Joice: um sorriso em uma manhã ensolarada fazem as coisas todas se justificarem. grata pela visita e, retorne quando puder ou quiser! portas sempre abertas para a sorte entrar.

Abraço nas 2!
.aline.

Clarinhaaa disse...

MINHA NOSSA!!!!!!!!

posso ser mto sincera!?!?
eu estou emocionada!
me senti ali, dentro de vc - literalmente!

Quero um Sé pra mim. Quero um chocolate... Quero sem um pássaro ali, naquele instante pra poder cantar e vcs ainda terem trilha sonora!

AMEI!!!!!
mesmo mesmo!!!!

bjs e obrigada pela lição e pelas emoções que senti..
FOI MARAVILHOSO.... mesmoooooo!

glória disse...

Aline, preciso falar com você, envia teu telefone por email tá? gloriadiogenes@gmail.com. bj

*Gabi* disse...

De tocar a alma... De fazer refletir sobre a tão falada busca pela felicidade...
Lindo post! Bjos