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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ah Caio, eu também!


[imagem: Aj Bossa]

"Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardarei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto - meus gestos e palavras são magrinhos como eu, e tão morenos que, esboçados à sombra, mal se destacam do escuro, quase imperceptível me movo, meus passos são inaudíveis feito pisasse sempre sobre tapetes, impressentida, mãos tão leves que uma carícia minha, se porventura a fizesse, seria mais branda que a brisa da tardezinha...

(...)Esforço-me por dar-lhe pinceladas tênues, não me atrevo aos óleos nem aos acrílicos, é nos guaches e sobretudo nas aquarelas que procuro o verde esmaecido de sua tez, mas por vezes alguma coisa se alvoroça e me surpreendo alucinada, incontrolável, a chafurdar em tintas fortes, berrantes cores primárias, formas toscas, símbolos sensuais, e é então que mergulho em banhos gelados no meio da noite para apaziguar a carne incompreensível, fremente qual Teresa d’Ávila, afogada entre lençóis, as palavras da cigana me embalando feito uma berceuse, imagino se não será o próprio Senhor este que se aproxima, e não conheço. 

(...)Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis, imagino sempre que sou invisível para cada um dos que passam. Ninguém suspeita de meu segredo, caminho severa pelas calçadas, olhos baixos para que minha sede não transpareça: ah sou tão morena e magrinha que ninguém me adivinha assim como tenho andado - castamente cinzelada no topo deste morro onde os ventos não cessam jamais de uivar, tendo entre as mãos, como quem segura lírios maduros dos campos, uma espera tão reluzente que já é certeza"  
.Caio Fernando Abreu.
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E, hoje, acordei sem nada a dizer.
Sem perguntas, por favor!
--
Dá um play no som do meu coração!

6 comentários:

glória disse...

esses escritos que-falam-de-você confirmam minhas suspeitas: tua leveza borbulhando palavras inquietas. Eu compartilho com você essa passagem:

"aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia"

eu sei que as delicadezas nem sempre carregam a suavidade que as anima.

bjs

Mônica. disse...

Caio é lindo e dói.

Tainá Facó disse...

Esse Caio que tanto fala por nós...

-Thiago Matos disse...

Esse Caio F. tão marcante por vezes...

Anônimo disse...

que livro???
Luana

eDu Almeida disse...

Menina saudade de tu sabia? e até a saudade virtual é um problema. Sei que não quer perguntas, mas como sou teimoso insito em fazÊ-las? Qnd vou lhe conhecer ao vivo? e outra quem é esse Caio? Acho que andaram me descrevendo pra ele hehehe.