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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ouro de mina.



[imagem: Feet]

Nas minhas andanças pela cidade, sentei em um banquinho frente ao mar ao lado de uma senhora e uma rapazinho, no auge de sua adolescencia. Tá. Todos sabem que adoro escutar as conversas dos estranhos e depois, imaginar as soluções e os finais mais mirabolantes possíveis! Mônica diria "Aline no fantástico mundo de Bob", rs!

Mas a vontade de hoje não foi de direcionar um final mirabolante. Porque o assunto da conversa era um que me toca bastante. Hoje, nem tanto como em um passado ali, para trás.

Então, o 'pobre menino rico' estava triste pela família que tinha. Tinha problemas com a mãe que não era aquela que ele idealizara. Ele sofria ali. Os olhos estavam perdidos no mar, repetia que não queria uma 'mãe maluca' e que o 'pai era um estúpido'. Em um momento ele diz para a senhora que o acompanhava, que era "sozinho na vida, sem ninguém" ...

A senhora tentando consolar aquela dor ali, que na adolescencia podemos sentir ao percebermos que nossos pais estão sujeitos aos erros tanto quanto nós. Que eles não são heróis, que sofrem também, talvez muito mais que nós, por saber que os olhamos dessa forma.

Enfim, eles conversaram muito, o garoto engoliu várias vezes o choro, metia a cara entre as pernas, silenciosamente gritava por socorro. Ali, em sua dor, de fato estava sozinho.

O final para isso pode ser diverso. Aqui pensei em dois possíveis:

1. Ele vai se tornar vítima dessa situação com os pais, se amargurando e se tornando triste.
2. Ele vai compreender, não sem dor, mas compreender que todos erramos. Uns mais que os outros, mas vai seguir e fazer diferente de tudo.

Eu ali, quis dizer para o garoto ficar com a opção que fiquei. A segunda. Também venho da desagregação familiar, tive de olhar para meu pai [não sem dor tbm] e vê-lo tão humano quanto eu. Mas isso de alguma forma o aproximou de mim...

É importante para a nossa história de vida e visão de mundo, compreendermos os fracassos de nossos pais. A vontade que eles, assim como nós, possuem de ser felizes. E os tombos que levam e respigam em nós, pessoas muito próximas deles.

Me alegro ao me ver hoje muito amiga dos meus pais.
Minha mãe é meu lar. Estamos sempre juntas. Um laço forte de amor eterno.
Meu pai, a gente tem se dedicado em (re)construir o que ele destruiu. Mas nunca irá poder dizer que não lhe dei essa chance e todas as que precisou( ou precisará se caso for) para cativar minha amizade novamente. Essa chance eu me dei também. Chance de aprender a amar 'apesar de', de procurar exercitar uma humildade de se colocar no lugar daquele que te machucou e tentar compreender (mesmo sem entender) as razões do outro.

Eu quis muito falar com aquele garoto.
Dizer-lhe que não permita crescer no coração dele nenhum tipo de mágoa perene. Magoado a gente fica. Aí a gente chora até desidratar, berra aos quatro ventos, se quiser bate porta e vai embora, etc [eu fiz tudo isso e muito mais.]. Isso é um direito seu. Mas é dever, depois, com calma pensarmos com amor em como é difícil criar uma ser humano. Separar esse ser humano a um ponto que nada que te acontecer vai respingar nele.

Até que ponto um ser humano pode ocupar somente o lugar de pai ou mãe?
E seus anseios? Onde ficaram? Não. Como filhos não temos o diteiro de lhes cobrar a perfeição. Como pais eles não possuem o direito de nos magoarem, como às vezes acontece. Mas como seres humanos que somos, temos o direito de não sermos perfeitos. De recomeçar, de termos chances e melhorarmos.

Olha não é fácil não.
Mas acreditem, [não sem dor] a gente cresce, se fortifica...
Graças a todos os nós que vivi nesse sentido, me transformei na pessoa que sou.
Uma pessoa que se permite dar chances a si de compreender o outro e, nisso abrir as janelas do meu coração para que o sol entre levando embora toda e qualquer mágoa.

"Pobre menino rico", você vai superar [não sem dor], mas como canta o Gil "a dor ,o grande poder transformador".

Trasnforme-se para o bem.
Para o seu bem.

Um comentário:

glória disse...

que bom esse encontro com voce! provavelemente, essa é forma mais próxima de mim (sentimentos em letras ou não). soube de você no nuarte (tempos da encantadora Bia)e foram tempos atordoados! O "ouro de mina" diz sobre o ato de recomeçar, de perdoar, de nos perceber tão inevitavelmente imperfeitos e, por isso mesmo, encantandos e encantadores! visitemo-nos! bjs